Para dançar no meio fio

Passou o que era só uma luz, que virou fogo, que queimou o desejo, a vontade do sexo todo dia, do café na cama, do restinho de vinho que ficou na garrafa. Virou pó. Virou cinza de um amor que já foi a maior vontade. Agora é o quê? É tempo. É tempo que resta para olhar uma foto, para sentir um cheiro, para ver aquela luz da ponte do Rio Sena e sentir o outro. Sentir saudade. Enquanto isso a gente vive sem muita pressa de viver. Vivendo bem calmo, só olhando o sol meio gelado que tem a nossa cidade. Passou. Como passam todos os carros enquanto a gente tenta atravessar a Avenida Paulista. Mas dentro de nós durou. Durou como aquela pausa no banco do parque. E assim seguem todos os nossos dias, em pausas e ruas, até a gente entender que acabou. Até alguém que a gente esbarra no supermercado virar alguém que a gente esbarra no restaurante, no ônibus, em casa, no altar. Vira alguém que o outro nunca foi, mas que sempre precisou. Eu sei, parece difícil enquanto se está na calçada, mas logo a gente atravessa… pra dançar pertinho do meio fio da vida.

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abril 18, 2011 at 12:58 am 5 comentários

Carta de manhã

“Eu não ia dizer nada, mas não consegui parar de pensar enquanto coava o café. Sofia, ontem você dormiu inteira enxarcada de lágrimas na minha cama. Chegou aqui, um pouco bêbada, pedindo para ficar e eu não tive como dizer não. Se eu pensar bem agora, eu devia ter dito. O que realmente foi inevitável era te olhar dormindo. Sofia, você tinha cheiro de mágoa e olhos borrados de tinta preta da maquiagem. O que foi que aconteceu? O único pedido foi para não te deixar sozinha. Eu não deixei, deixei? Eu fiquei aqui do seu lado o tempo todo, mesmo sem saber o que exatamente estava acontecendo e porquê você escolheu a minha casa, a minha cama para passar a noite. Achei que hoje de manhã tudo estaria bem, eu iria levantar, deixar a chave com você e ir trabalhar. Mas não está dando, estou com medo de voltar e não te ver mais aqui. Fica, mesmo que tenha a chave, mesmo que tenha só esse vestido, mesmo que tenha só você e essa televisão meio velha na sala.

Sofia, eu estou tomando meu café pertubado com o seu corpo na cama.
Por favor, me ligue quando acordar e ler esse bilhete.
Beijos e Bom dia

Obs:
Tem geléia de uva na geladeira, eu sei que você gosta.”

abril 1, 2011 at 4:01 pm 2 comentários

O que é tristeza para você?

“Fazer o que a gente não gosta, é o pior desemprego do mundo!”

O artista filmado é Hélio Leites. Eu me encantei com tudo o que ele disse no vídeo e só depois descobri que o tal é meu vizinho e dono de uma casa colorida que sempre olho quando volto da faculdade.

O mini-documentário faz parte da série “O que é tristeza para você?“, do projeto Thomás Tristonho.

março 30, 2011 at 6:04 pm 4 comentários

A Frescura

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!

Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que’eu saberia que não vinha.

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,

Deliberadamente à mesma hora…
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!

Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

A Frescura
Fernando Pessoa, em Álvaro de Campos
Álvaro de Campos, em Fernando Pessoa

março 29, 2011 at 3:00 am Deixe um comentário

Eu vejo flores em vocês

-A imagem é da galeria do venoms.

As quatro amigas deram as mãos, em cima daquela pedra que dá pro oeste e embaixo daquele céu que reflete no mar. Nós fizemos uma coisa que muita gente acha loucura, (não, a gente não se jogou lá de cima) a gente só ficou em silêncio. A gente tentou refletir, meditar, sentir, rezar, imaginar, torcer, vibrar, ou sei lá o que cada uma fez. Até hoje não sei e nem sei se quero. Basta saber que naquele momento as três viraram flores pra mim.

O que eu quero dizer é que algumas pessoas passam na minha vida e viram flores, às vezes somente por ter… Passado. Tum! – virou flor.

É extremamente necessário que me toque de alguma maneira. Não é discurso de pequeno príncipe, não pedirei pra que você me cative. Eu to pedindo é pra você ser. Ser você, ser um pouco eu, ser aquele ali que passou agora na frente da sua mesa e você nem reparou porque você estava sendo só você e mais ninguém.

Enquanto eu me digladio com meus problemas, discuto até com a porta que emperra quando eu quero bater e depositar nessa batida toda a minha raiva, brigo um pouco comigo e com o mundo, que perde tempo e alguém para uma besteira casual da vida. Esqueço, durante todo esse ato de drama gregoriano, que tem ali a dois passos de mim, uma chance de curar toda a ressaca do meu peito: escrever. É escrevendo que eu vejo várias pessoas em mim. Vejo eu mesma e todas as versões de mim mesma que acompanham, vejo o Felipe que escrevi há meses e faz sucesso em uma coluna de jornal, vejo a Jaque, colega de trabalho que abraça todo mundo todo dia e faz disso um charme próprio… Enfim, deixo de olhar só pra mim e passo a olhar o meu jardim.

Acho que essa história toda de ver as pessoas e elas virarem flores pra mim é uma analogia barata ao jardim que tem aqui na frente da mesa do meu computador. E toda vez que eu sento aqui, antes de escrever eu olho pra ele. Tum! – virei flor.

Mas se serve um pouquinho pra você, que até agora leu tudo pra tentar entender onde eu iria chegar, vai ali fora ver a moça da padaria, a mãe buscando o filho na escola, o cobrador do ônibus… Transforma todo mundo em flor, rouba e leva pra casa, pra você.

Não nos deixemos levar por problemas e portas emperradas!

março 23, 2011 at 2:18 am 2 comentários

Por enquanto

Ele disse: “não produza pouco, produza muito” e logo a ideia fixa que eu tinha de escrever sobre o mundo, vira uma ideia fixa de escrever sobre ele. Do que mais escrevo que não seja sobre mim e sobre eles? Mas ele, surpreendentemente ele, não está entre eles todos. É ele, só ele, sem letra maiúscula ou apelido vingativo de uma relação que não deu certo. É simplesmente ele, e eu. Só.

Enquanto a passagem de avião continua cara e ele continua lá, longe, eu fico imaginando toda conversa online a ser vivida no chão do meu quarto. Eu, ele, papéis de arte jogados no carpete. Ele declama uma análise, eu concordo. Não, não estou concordando com a análise, só estou concordando com a cabeça dele que move e olha para os papéis como se fossem documentos importantes. São cores e letras, arte fina e vulgar ao mesmo tempo.

Só estou esperando um pouco, me distraindo com outro programa, olhando pro outro lado e me enchendo de amor falso pra não me encher dele, que está tão longe e mesmo assim faz tão bem pra mim. Só estou fazendo isso com a intenção de ver as horas passarem logo, para eu logo descer do ônibus e para logo tê-lo. Assim, ele de novo, só ele.

março 14, 2011 at 2:27 am Deixe um comentário

O ilustrador Matheus Lopes traduziu em traços a minha atual sensação.

março 14, 2011 at 2:24 am Deixe um comentário

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