Archive for maio 8, 2011

Na plateia

Era começo de 2000. Eu estava com outras 40 crianças cantando alguma música sobre chuva em uma apresentação de coral em Ponta Grossa. Eu não sei bem onde ela estava, porque a plateia estava lotada de pais enlouquecidos, mas eu a vi no final, bem pertinho da porta por onde a gente saiu.

Era começo de 2005. Eu estava em cima do palco do Teatro Lala Schneider, com um vestido branco e orelhas cumpridas na cabeça, interpretando uma criança que interpretava um coelho numa peça infantil. Ela estava no canto esquerdo da plateia.

Era começo de 2006. Eu estava cumprindo meu papel de oradora da turma, com as mãos suando e a voz um pouco presa entre os pulmões e as cordas vocais. Ela estava no meio, um pouco para a direita da plateia.

Era final de 2008. Eu estava sentada com vários alunos, ansiosa esperando o resultado de um concurso de cases. Dessa vez eu não subi ao palco, mas me inclinei um pouquinho na cadeira e logo vi que ela estava só algumas fileiras distantes de mim na plateia.

Eu não virei cantora, não virei atriz e nunca mais aceito o cargo de oradora. O que, de fato, não contribuiu muito para ela retornar às plateias, mas nunca a impediu de presenciar meus dramas novelescos, minhas cantorias no chuveiro e minhas tentativas de discurso pós-parabéns. Isso me faz duvidar se ela seria minha maior fã, mas com certeza minha mãe foi e sempre será minha maior plateia.

Uma vez eu li uma frase que dizia sobre a gente não planejar a nossa vida, mas planejar muito bem planejado a vida dos nossos filhos. Bem, minha mãe não planejou que eu seria jornalista metida à escritora, mas planejou que eu seria feliz. Demorei muito tempo para entender que minha mãe não estava em todas aquelas plateias para me prestigiar como atriz, cantora, oradora… Ela estava ali para conferir se eu estava sendo feliz. E por mais que eu tenha escolhido descer a minha felicidade de cima de qualquer elevação próxima a um palco, ela permanecerá na minha plateia. Na plateia da minha vida.

Mãe, obrigada por me assistir quando nasci, cresci, chorei por mamadeiras, garotos e vestibulares, ri de caretas e amigas, dancei balé, joguei handebol, fingi que sei surfar. Mas principalmente obrigada por ter planejado tão bem o script da minha vida, porque hoje eu sou feliz pra caramba!

maio 8, 2011 at 5:09 pm 8 comentários


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