Archive for janeiro, 2011

Eu, Felipe e São Paulo

Eu não sou de São Paulo, Felipe também não e muito menos a nossa história começa lá. Na verdade, nós nos conhecemos em Curitiba e lá passamos a maior parte da nossa amizade e do nosso namoro. O que acontece em São Paulo é justamente o fim de todo o começo. Eu, Felipe e a cidade que nos desmontou em partes de amor jogadas por aí. Mas calma, não é preciso ter medo de ler este conto. É mesmo raro encontrar uma história de amor torta assim. Simplesmente porque a gente se assusta quando se depara com aquilo que se aproxima do real.

Essa é uma história real
De um amor real.


Foto de akaitori.

Felipe é músico, um músico de variadas formas: maracatu, maxixe, choro e bossa nova. Eu brinco de ser escritora, uma escritora que pensa mais do que escreve. Conhecemos-nos em um bar perto do Museu Oscar Niemeyer, ainda estava claro e quente. Depois de algumas cervejas geladas para espantar o calor, passei a acompanhar o violão dele com os ombros. De forma ritmada, chamei a atenção. Alguns meses depois Felipe veio a me falar que olhou para a minha dança e observou quem eu estava a acompanhar de forma quase descompassada, ele. Diante de seus companheiros de palco, eram as suas cordas que me levaram a gingar. Então se aventurou a me procurar depois do show.

Felipe virou texto em meus cadernos,
Virou explosões no peito e borboletas na barriga.
Felipe fez meus ombros dançarem por mais três anos depois.

Construímos um amor a sete chaves. Sabíamos que nosso namoro era algo singular e não queríamos perde-lo por nada. Aconteceu que, perdidos em tanta fantasia romântica, esquecemos que a vida toma rumos e não vive somente de noites na cama. Regada de amor, escrevi um livro e publiquei sem pretensão. O editor-chefe de uma revista feminina gostou e me chamou para trabalhar com a sua equipe em São Paulo. Hesitei, mas aceitei. Pedi para Felipe que me acompanhasse e como um bom namorado e amigo, assim ele fez. Felipe largou sua banda, largou a MPB paranaense e foi procurar emprego em São Paulo.

Achamos um apartamento
Fizemos dele nosso lar
Pequeno de parede
Grande de paixão

Uma moça que Felipe conheceu no Museu de Arte Moderna o convidou para tocar em sua banda. Felipe aceitou, gostou, ensaiou muito, ensaiou noites e, meses depois, ganharam um concurso de música brasileira. A ligação com a notícia, veio por volta das 23h, enquanto eu ainda estava presa na redação e não dei suficiente atenção à conquista. Nessa noite, o bar escolhido para a comemoração estava cheio e quente. As cervejas geladas que Felipe tomou o fizeram bater os pés no chão de forma ritmada.

Felipe ritmou-os acompanhando a voz da moça
Felipe se embalou na dança de seus quadris,
Chamou-a para dançar,
Chamou-a para beijar.

No dia seguinte, sinto um enorme vazio no peito dele. Vejo que seu rosto carrega mais que uma ressaca. Seus olhos carregam um peso além das sobrancelhas e, de repente, passam a ficar marejados. Abraço Felipe e passo a compreender nosso erro. Percebo que nos esquecemos de levar nosso amor junto à vida. Embalamo-nos pelos nossos mundos. Perdi-me em linhas de artigos, ele perdeu-se em notas musicais.

Houve esforço para curar as feridas,
Houve mais música, mais textos,
Mas dessa vez… Houve mais companhia.

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janeiro 30, 2011 at 7:41 pm 12 comentários

Quem me deixa

Aquele dia ele não queria ir embora, mas foi. Essa talvez tenha sido a coisa certa a fazer. Ele foi embora de novo ontem, nem sei se queria. Outra escolha certa. O vazio que ficou do meu lado cutucou meu ombro e sussurrou no ouvido “Alguém já fez isso com você?” e eu tive vontade de sair correndo pela escada e gritar para ele me esperar. Que foi? Esqueci alguma coisa? Esqueceu. Esqueceu que eu sorri muito quando a gente se conheceu. E quando uma mulher sorri muito, é porque ela quer desviar a atenção do que está escrito na testa: “Gostei de você”. Gostei e nem sei bem o porquê. Nem tem nada de mais, só um rosto três vezes mais bonito do que o cara do filme de ontem. Nada além disso. Nenhuma marrentisse, nenhum indício de homem cult-moderno, nenhum papo além de 30 minutos. Mas sabe o que é? Sou boa em alimentar a sensação de ser de alguém. É por isso que você fez bem em ir embora. É por isso que você sempre faz bem quando resolve ir. Me deixar sozinha é me entregar a notícia de que até então eu só estava sonhando.

janeiro 19, 2011 at 4:12 am 2 comentários

A pessoa que estamos, no lugar que somos.

José Saramago em “O Conto da Ilha Desconhecida” (Companhia das Letras), coloca na língua de seu protagonista a seguinte frase: “Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver”. Desde então, passei a entender a sensação que temos ao nos deparar com a pessoa diferente que temos dentro de nós quando estamos em lugares novos. Nunca sou, nem nunca serei a personagem que vive seus dias iguais, frequenta restaurantes iguais e se veste igual. Ir à um lugar novo é nos dar a chance de sermos novos também. E por mais que a gente sinta falta de nossas casas e nossas vidas, sempre desejaremos voltar para casa sendo diferentes.

Pra onde você vai ser hoje?

___
A foto é de buen·ʌv·entura

janeiro 13, 2011 at 3:02 am Deixe um comentário

É vida e vento

Mesmo achando que ele me chamaria de louca, contei que naquele dia que ele me levou pra casa, o i-pod dele tocou uma música que acompanhou o ritmo do meu sangue no corpo. Que me deu um empurrãozinho na testa e me fez encostar a cabeça entre o banco e o vidro. O vento que entrava pela janela, bateu nos meus olhos fechados e me fez sentir tudo que eu precisava sentir naquele dia. É a tal da sensação de estar vivendo depois de um dia inteiro no automático. É a sensação de estar em um filme só porque nos filmes a gente vê a vida… e a nossa, a gente passa batido. A trilha sonora combinou com a luz da madrugada, combinou com o vento, combinou com ele colocando a cabeça pra fora da janela e sorrindo enquanto dirigia. Ele gritava “faça isso, é muito bom” e eu sorria leve e pensava que queria mais filme com a minha vida e mais vida para o meu filme.

janeiro 12, 2011 at 9:20 pm 2 comentários


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