Archive for novembro, 2010

Diário de bordo de uma preguiçosa. Ou: Diário a bordo de uma Sundown.

Eu tinha dormido só 3h e já estava de pé para me encontrar com o Patrick, amigo meu de faculdade e responsável por grande parte dessa história toda. Abri a porta da garagem e vi ali, bem no fundo, atrás de várias tranqueiras, a Donzela de Ferro. É, esse é o nome da minha bicicleta. Ela era a fiel companheira do meu irmão, até ser trocada por uma Caloi Supra. Então lá fui eu socorrer a Donzela. Sai de casa toda torta, com pneu murcho, andando em zig-zag e torcendo pra nenhum ônibus passar por cima de mim. Quando eu já estava morta, cansada, pedindo arrego e copo d’água, começou a bicicletada.
A bicicletada é um movimento organizado e comprometido com a sustentabilidade, com a troca do carro pela bicicleta, com um mundo mais ecologicamente correto para se viver. Admito que já conhecia a bicicletada há 3 anos, mas meu ativismo entrou em conflito com a minha preguiça e nunca participei. Dessa vez precisei de um motivo maior: meu compromisso com a fotografia.

Foto: Sofia Ricciardi Jorge

Eu, munida de uma Nikon D60 e uma objetiva 300mm, comecei o passeio toda atrapalhada (para variar), mas cheia de fotos boas. Isso era possível porque lá estava cheio de gente sorridente, cheios de ideias, cheios de experiências pra trocar, pedalando, conversando, ouvindo música ou gritando por menos carros. O clima era bom e as pessoas também. Estávamos acompanhados da figura carimbada do Plá, músico genial aqui de Curitiba e queridinho dos adolescentes freqüentadores do centro. Para completar, tínhamos entre nós 2 colombianos que me contaram que lá na América Central também tem bicicletada, também tem gente querendo mudar o mundo em duas rodas.
O resto do passeio foi recheado de surpresas, uma atrás da outra. Seja pela quantidade de pessoas que parava, cumprimentava, apoiava, gritava, ou pela quantidade de carro que não obedecia, não respeitava, ameaçava e brigava. Contudo, a maior das surpresas foi perceber que mesmo diante de uma cidade tão grande, com seus mares de carros, motos e toda a impaciência que o trânsito caótico nos sugere, os ciclistas permaneceram com a serenidade com a qual iniciaram a manhã e estacionaram suas Donzelas de Ferro na Praça Santos Andrade, no centro da cidade, para praticar Yoga ali mesmo, descalços, com um monte de gente indo e vindo apressada para o trabalho. Essa paz, essa paciência com o mundo, é uma coisa que eu nunca havia sentido.

Foto: Sofia Ricciardi Jorge

Depois de registrar esses momentos, de ficar apaixonada pela Manuela, uma criança que acompanha seu pai em todas as bicicletadas, de entender que aqueles ciclistas não ligam para o que nós jornalistas, com toda a nossa mania de estatística, chamamos de minoria e maioria, pois todos ali estão cumprindo o tal do “fazer sua parte”, entendi que aquele movimento nada mais é que uma compreensão coletiva do que é o primeiro passo.

Olhei pra Donzela de Ferro e disse “Nunca mais te deixo naquela tranqueira de garagem”.

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novembro 29, 2010 at 4:35 pm 12 comentários

Papel

E tudo que eu pensei
e tudo que eu falei
e tudo que me contaram
era papel.
E tudo que descobri
amei
detestei:
papel
Papel quanto havia em mim
e nos outros, papel
de jornal
de parede
de embrulho
papel de papel
papelão.

_____________________________Carlos Drummond de Andrade.

novembro 21, 2010 at 3:59 pm 1 comentário

De volta a Curitiba

Voltei com a sensação de ainda estar olhando para o mar. Dentro da minha cabeça reclamei por não ter um horizonte misturado de mar e nada, de infinito e vazio. Lembrei de um email que não tinha respondido. Um email com muitas linhas em branco, mas recheado de amor no verso. Sabe, conheci diversas pessoas que escrevem para se sentirem mais leves. Esse cara, esse cara escreve e sente o mundo todo pesar na sua consciência por fazer isso. Desculpa cara, sinto que sou culpada por isso. Mas saiba que lá na ponta da ilha, quando me dei conta do meu tamanho perto de tanta areia e oceano, quando senti saudade de uma pessoa que ainda não entrou na minha vida, quando meus olhos marejaram um pouco ao lembrar que ainda não amei e fui amada com a mesma intensidade, quando tudo pareceu distante demais para o meu entendimento, eu pensei em você.

novembro 18, 2010 at 11:37 am 2 comentários

Terça-feira

Felipe me perguntou o que me incomodava. Eu olhei sem graça através da divisória das mesas e foi aí que caiu a ficha: eu estava reclamando de algo que não me incomodava. “Mais de 30 caras já se meteram nas linhas do seu moleskine, viraram publicação, viraram blog, viraram livro. Ele nem chegou perto disso. Jura que você está emburrada por causa de um cara que não vale nem um RT no twitter? Se ele ainda tivesse te dado um chocolate, mas nem isso!”.

Além de me ensinar a converter vídeos, o nerd de óculos e moletom da GAP também estava me ensinando a ser uma solteira (ou encalhada) convicta.
Bateu uma vontade forte de afundar minha cabeça na caneca de chá.

novembro 16, 2010 at 1:55 pm Deixe um comentário

Doce

Ele gostava de me encontrar no corredor do trabalho logo de manhã porque dizia que minha boca tinha gosto de adoçante. Era o café que eu tomava logo cedo para acordar do sonho que ainda não tinha sido interrompido. Coisa de gente nova, confundir o sonho do dia com o da noite, confudir o sonho da noite com o do dia. Misturar tudo e não lembrar mais o que é realidade. Ele gostava disso e do meu sorriso eterno. Anos depois meu sorriso cairia no esquecimento, poderia ser visto com muito esforço no escuro do cinema. É que eu sempre gostei de quando as luzes do cinema apagam lentamente, isso sempre me deu um frio na barriga, como quem diz adeus à própria vida para viver a vida de quem está na tela. Ele e eu optamos por uma casa sossegada, um emprego sossegado, uma rede para descansar e uma filha para amar. Só esquecemos de um amor sereno para levar. Era assim nosso tempo juntos, uma brincadeira de não olhar pela janela pra não ver o mundo lá fora.
O mundo lá fora não tem gosto de adoçante.

novembro 9, 2010 at 11:44 am Deixe um comentário

O quadro aqui do lado

______________________
Tem coisas que a gente pendura no quadro,
Tem gente que a gente pendura na vida.

novembro 6, 2010 at 2:43 am Deixe um comentário

Hoje meu irmão faz aniversário…

Queria dizer que lembro contente de quando ele pegou todas as minhas Barbies com seus apetrechos domésticos cor-de-rosa e fez uma mansão pelo meu quarto inteiro, usando fita crepe para as divisórias dos quartos e tudo o que era artigo para dar graça ao cenário. Ali eu aprendi a não brincar só do jeito que mandava a caixa do produto.

Queria agradecer por me ajudar a vestir uma roupa cool para ir naquela festa em 2003. Mesmo sem entender nada de moda, disse pra eu trocar a saia de mulherzinha por uma calça jeans, camiseta branca e um cinto maneiro. Fui simples, mas virei a sensação. Ali aprendi que menos era mais.

Queria agradecer por inventar umas bizarrices muito próprias dele, como resolver do nada pegar um barco em Floripa e ver onde ele ia dar. Ele convidou, mas eu não fui. E aprendi, assim, que os arrependimentos servem como lição, pra gente não ser bunda-mole duas vezes.

Queria agradecer por me meter em noites que eu nunca vou esquecer, como sair de um bar de madrugada e comer (com as mãos) um frango assado inteiro na Praça da Espanha. Ali aprendi que questionar “Por que não?!” pode nos render experiências nonsenses e divertidas.

Queria agradecer também por ter me buscado em tantas festas às 3h00. Porque ali eu aprendi que mesmo quem faz uma coisa por obrigação, pode fazer de coração.

Queria falar que me orgulho por ele ter me ensinado a usar torrent; e ensinado a fazer miojo cremoso; e ensinado a tomar a vitamina de banana do Peggy Sue; e me ensinado a pensar antes de falar (mesmo que eu ainda não tenha aprendido completamente); e ensinado a contar sobre namorados só depois de três meses de engajamento; e ensinado a gostar de rock; e ensinado a irritar minha irmã com eficiência; e ensinado muitas outras coisas que só um irmão mais velho pode ensinar.

Hoje meu irmão faz aniversário.

novembro 4, 2010 at 2:20 am 4 comentários


Hoje é dia…

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