Archive for junho, 2010

Ela não te quer

Ela era inatingível. Era misteriosa e inatingível. Sorria um sorriso sincero que te deixava a sonhar durante a reunião com aquele deputado. Ela era simpática e você a via sendo assim com todo mundo, menos com você. Ela saia quando você chegava, se ocupava quando você procrastinava. Tomava chá gelado na sala, enquanto você enrolava no café para ver se a encontrava. Desfilava conversas com seu chefe na frente da sua sala de vidro. Você, se sentindo dentro de um aquário, reclamava não poder ouvir o que se passava no corredor. Ela não foi na festa do final de ano da empresa e ninguém soube te dizer o porquê. Deu raiva, não deu? Deu vontade de puxá-la pelo cabelo aquele dia no elevador e dizer que ela era sim, a mulher mais suspeita daquele escritório. Suspeita pra te fazer negar toda a postura cafageste, que você tanto demorou para aperfeiçoar. Ela não podia te desafiar desse jeito, não podia passar pela sua sala sem espiar, isso não era regra do jogo. E ela fez. Ela ignorou todas as suas imposições. Não, ela jamais te pediria grampos emprestados, nem imprimiria “sem querer” na sua impressora. Ela jamais bateria na sua porta e jamais ligaria para o seu ramal. Ela te fez odiá-la. E você odiou. E você odiou tanto que quis amá-la. Amar dentro da sua sala laranja com luz fraca. Mas ela não deixou. Ela, essa mulher inatingível que eu tenho dentro de mim.

Anúncios

junho 27, 2010 at 2:08 am Deixe um comentário

Desisti da escrita

Desisti de achar o mundo chato, bobo e feio. De procurar na palavra dos outros, as minhas. Depois que todo mundo viu que eu escrevia, eu desisti. Ontem rabisquei minha história como se não fosse minha. Terminei com o arquiteto boa-praça só para poder escrever. É que me deu uma saudade de sofrer de amor, sabe? O coitado ficou sem entender, e sem me ler… Então eu desisti. Desisti de escrever. Li uma poesia colada no vidro do ônibus quando voltava da Lagoa. Sonhei em fazer igual e logo em seguida des-sonhei. A menina no banco da frente alertou: “Por que quem escreve nunca ama?”. Não amo, repeti. Eu não amo porque um dia inventei um sonho de ser escritora. E lá, na hora do visto final, na terra dos sonhos, junto com outros milhões de jogadores de futebol, médicos e advogados, eu simplesmente hesitei e exclamei: “Não! Eu não quero não!”. Eu quero amar, mas não quero só isso. Pois todo poeta ama demais, mas ama demais sozinho. Cadê alguém pra amar comigo? Pus o anúncio: Troco cadernos rabiscados por lençóis amassados. Ninguém viu, ninguém ligou e nem pediu pra ver o estado dos cadernos. Ninguém troca amor, ninguém troca poesia. Não há devolução nem garantia. Sobrei. Sobrei no mundo quando decidi não mais escrever, para amar. Fiquei sem amor e sem nenhuma companhia.

junho 22, 2010 at 4:14 am 3 comentários

Pra que chorar?

Enfiei a blusa na cara pra conter o choro. “Não! Eu não quero descer pra jantar!”. E também não queria que a minha mãe tivesse aparecido assim, tão boa e caridosa pra me perguntar por que eu estava daquele jeito. Isso, da mãe boa aparecer pra acudir a filha dramática, só deixa a gente com mais vontade ainda de continuar a chorar. Tentei explicar, mas não consegui. Nem eu sabia como começou a choradeira. É a conta do banco, é a falta de um homem, a saudade do outro, a sensação de ser ridícula perto de tanta gente cool e bonita. São as dúvidas, os Kg na balança, os preços e os vazios sem explicação que aumentam, aumentam e aumentam. Não! Não é TPM, mau-humor, falta de sexo. É aquilo que na correria do dia-a-dia a gente acaba deixando de lado. Deixa pra sentir depois, que é pra não perder tempo. A gente só esquece que um dia isso tudo chega, chega sem você nem perceber. O fio do fone rachou, o salário atrasou, a chefe brigou, o cara não ligou e a bendita calça não entrou. Então ouvi um “não” e chorei, porque eu só precisava de um “sim” pra empurrar a diante, por mais um dia, tudo que me incomodava. Voltaram as chateações pequenas e o ponto de interrogação suspenso. No fim das contas, eu enfiei a blusa na cara foi pela vergonha de dizer que acho os meus problemas os piores do mundo, sabendo que não são. E de dizer para a mulher ali sentada na minha cama, que o choro é coisa da mulher-boba que, às vezes, quer o mundo todo de mão-beijada só pra ela.

junho 21, 2010 at 9:14 pm 1 comentário

Quando não se esconde

O poeta da mesa ao lado disse que meus cabelos eram cachoeiras tropicais, me chamou de prosaica no seu blog e escreveu no jornal, pra todo mundo ver, que eu usava aparelho móvel nos dentes. Ele sabe que eu gosto de Mentos de uva e sempre ri quando eu digo isso ao comer um. O poeta não me segue no Twitter, mas visita a minha página e lê todo o meu monólogo virtual. Eu? É, eu sei disso tudo. É que a gente não esconde mais.
Outro dia eu o vi sorrindo e olhando pro meu pé. Quando eu estou inquieta fico rodando ele com o tornozelo, sabe? Aí me deu uma vontade de cutucar ele e dizer: “Eu sei, dá vontade de escrever né? Esses detalhes bobos da vida nos dão vontade de contar pra todo mundo, mesmo sem ter muito do que falar sobre eles”. A gente não esconde mais. Não esconde que se entende, mesmo sabendo que ninguém pode nos entender. Que brinca de decifrar os outros, mesmo que sabendo que ninguém é decifrável. E quando faz frio, ele já sabe que eu vou entrar na sala e dizer: “Nossa gente, ‘tá’ frio né?” como se ninguém soubesse. E quando eu converso com as minhas amigas, eu sei que ele está ouvindo tudo por mais baixinho que a gente fale. Mas eu não ligo, a gente não esconde mais e o poeta é fonte confiável.
Em dias de apresentação de trabalho, o poeta sempre surpreende com seu cérebro de biblioteca e repertório de dar inveja. Eu e o Marcos sempre ficamos aliviados por ter ele no grupo. Eu me pergunto como ele faz para ter tempo de ler tanta coisa, enquanto eu mal consigo parar para almoçar um cachorro-quente na esquina. É nessa parte do meu texto, quando eu digo uma coisa bem atrapalhada e feia da minha vida, que todo mundo ri. Enquanto no texto do poeta, todo mundo acha tudo bonito e sereno. Um pouco parecido com o todo-dia: o sereno e a atrapalhada, o calmo e a hiperativa. Então fica todo mundo lendo os dois pra ver se descobre alguma coisa. Se um dia um vai escrever, e o outro vai responder. Coitados, mal sabem eles… que a gente não esconde mais.

junho 18, 2010 at 8:31 pm 1 comentário

No canto esquerdo do palco

Eu dei um gole na minha cerveja e acompanhei, com os olhos, a moça cruzando o salão com passos firmes e decididos, mas claramente sem pensar muito. Ao menos, se fosse ela, eu não pensaria. Antes de a música começar, ela encostou as mãos no braço dele já com um sorriso tímido no rosto. Dei mais um gole na cerveja enquanto a menina se apresentava. Ali de onde eu estava era possível ver, mas não ouvir. Avistei o baixista subindo no palco e me veio aquele arrepio na coluna. “Pô cara, porque todo domingo é assim?” pensei. Apostei comigo mesma quanto tempo a conversa ia durar. Durou até o taxi chegar e ela ir embora, com direito a risadas e caras de surpresa nesse intervalo de tempo. Achei isso tudo corajoso e bonito da parte dela. No último gole da cerveja quase quis imitar, mas não deu tempo… A banda começou a tocar.

junho 14, 2010 at 5:55 am 1 comentário

A mulher inventada

A mulher sem amor foi criada em algum momento de amor-demais da minha vida. A mulher intelectual veio no dia que me chamaram de burra, mas com ela também veio a mulher corajosa que deu um tapa na orelha do infeliz. A louca foi criação minha, até hoje não sei porque. A tarada veio com a falta. Já a santa… foi de fachada. A mulher de brinco, salto alto e maquiagem aparece de noite. A mulher de cara limpa, pijama e meia colorida dá as caras pela manhã. A mulher-mãe é papo de signo. De timidez e controle faltou. De show e impulso sobrou.

junho 11, 2010 at 3:00 am 2 comentários

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

junho 10, 2010 at 2:38 am 1 comentário

Posts antigos


Hoje é dia…

junho 2010
S T Q Q S S D
« maio   jul »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

Sofisticada no Twitter


%d blogueiros gostam disto: