Archive for maio, 2010

A dança da (minha) vida

Terminou o filme e eu fiquei ali, na cama, no escuro do quarto imaginando uma Sofia diferente e comparando aquele roteiro da Tv com o desenrolar da minha vida sem-roteiro. Terminei de escalar e lá de cima olhei pras pessoas de baixo como formiguinhas de vidas perfeitas sem sogras, sem chefes e com sexo bom todo dia. Desejei, lá de cima, descer uma nova mulher. Terminou a viagem mas eu preferi permanecer sentada, fiquei com medo de sair do ônibus e não encontrar ninguém me esperando. Terminou o livro e eu chorei. Chorei por não querer que palavras bonitas tivessem fim. E quando terminou a música eu também tentei parar, mas ele não deixou. Abaixou o rosto e disse assim no ouvido: “Filha, na vida, ninguém e nenhuma música nos diz quando se deve parar.”

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maio 31, 2010 at 12:49 am 1 comentário

Entre nós

Faltou. Tocou o telefone, acabou o vinho, queimei o dedo. Deixei você tirar a jaqueta, abrir meu zíper e rasgar um pedacinho da minha blusa. Você respirou pesado no meu ouvido e eu achei isso bonito. Mas eu esqueci no dia seguinte porque… faltou. Lembrei que te agradava demonstrações de carinho em público. Beijei. Beijei pra você ver que eu não tinha mais vergonha de você. Conheci sua mãe meio sem querer. Fiz boa pose para os seus amigos. Mergulhei de vez no seu mundo. Mesmo sabendo o que estava faltando. Trocamos presentes e ignorei indiretas. Convidei para o almoço da empresa e até apresentei para o chefe. Te chamei pelo nome porque não percebi que você, nessa altura do campeonato, já era algo meu e não alguém comigo. Faltou ali, mas tudo bem, continuei não percebendo até o dia que você disse aquelas palavrinhas que põe anéis imaginários nos nossos dedos. Aí eu engoli em seco a vontade de gritar: Não menino! Não! Tá faltando amor pra isso…

maio 30, 2010 at 11:33 pm 1 comentário

O corpo e o violão

Eu acordei e vi você já grudado no computador, nas suas músicas e no seu violão. Tocando baixinho, quase sem encostar as cordas, só para não me acordar. Eu não sei quanto tempo fiquei ali parada, na cama, só te observando. Só vendo o quanto de você, que é tão grande, cabe no meu peito, que é tão pequeno.
Lembrei tudo que passamos, da vergonha que eu sentia quando te encontrava e de como tudo e todos ficavam tão pequenos e insignificantes quando você dizia que eu era linda. Isso me faz rir um pouco alto e você, assustado, olha pra trás, mas já sorri e volta para a cama me abraçar. E eu te digo que você é a melhor coisa que eu poderia ver ao acordar. Você me pede em casamento e eu tenho vontade de esquecer que é só brincadeira e correr para ligar pra casa e gritar “Manhê! Achei! Achei um cara para a vida toda! Achei o segredo para ser assim, feliz como você e o papai!”.
Eu sei, eu sou meio boba por você. Já tentei esconder o peito inchado de amor, mas não dá. Não dá pra esconder quando você faz assim de manhã, abraça sempre tão quente meu corpo nu e gelado.

maio 30, 2010 at 11:11 pm Deixe um comentário

O que é isso?

O que é isso que bate na cabeça e fica? Que esquenta o rosto e esfria a barriga? Que seca a boca, molha as mãos, abre o céu e tira o chão? O que é isso que deixa sereno? O que é isso que faz a gente acordar cedo, dormir tarde, rir de tudo, se arrumar pra tudo? O que é isso que me deixa mais simpática? Que me dá coragem e vergonha? Me dá o mundo e me tira dele ao mesmo tempo. Me diz o que é tudo isso que me incomoda e me faz bem. Me diz porque eu não sei dizer.

maio 16, 2010 at 6:21 pm 4 comentários

Todo dia

A gente nem se conhece. Você sabe meu nome, sobrenome, faculdade, curso, turno. Todo dia, na mesma hora, de segunda à sexta você me vê. De vez em quando, duas vezes por dia. De vez em quando, correndo pra entrar no ônibus a tempo. Passamos no mínimo 40 minutos sentados lado a lado sem dizer uma palavra porque a gente nem se conhece. Você presenciou a ligação da minha primeira entrevista de emprego como jornalista e no dia seguinte, presenciou a ligação do meu primeiro contrato como jornalista. Eu sei que engasgou ali um “Parabéns” na sua garganta e formigou um abraço no meu braço, mas nos controlamos porque isso é coisa de quem se conhece. Sabe aquele dia que você encontrou um amigo e ficou vermelho porque ele falava alto coisas suas e você tentava dizer que era mentira porque sabia que eu estava ouvindo tudo? Eu ri virada para janela porque, afinal, a gente nem se conhece. Também sei seu nome, também sei seu curso e faculdade, também sei que você namora e gosta muito dela. E até prefiro assim, sabia? Prefiro saber o pouco a saber o demais e não gostar de você. Se bem que aquele dia que deu tudo errado, que me senti meio sozinha às 22h da noite voltando para casa e que o gordo do meu lado ocupava metade do meu banco, eu senti sua falta. Desejei de verdade levantar e ir lá trás sentar com você. Desejei desabafar e encostar a cabeça no seu ombro pra dormir. Ia ser bobeira né? Eu sei que ia porque o dia que te dei um sorriso você me lançou uma piscadinha tímida e tratou de sumir na multidão. Tudo bem, até por que… A gente nem se conhece mesmo.

maio 10, 2010 at 12:01 am 1 comentário

No hospital

Tinha ali um vidro entre nós. Ele, de um lado, dormia na cama de lençóis amarelos. Eu, de outro, morria de frio em pé no corredor. Odeio esse cheiro de tristeza. Mas isso não tem nada a ver com você, mesmo porque era somente um pé quebrado e um pulso torcido. Eu, que não te via à meses, achava isso tudo uma boa oportunidade para pedir desculpas. Hesitei. Fiquei ali achando mais bonito te olhar do que pensar no discurso das boas justificativas. Senti uma breve vontade de chorar, de pedir por favor para que você não exigisse nenhuma explicação do porque ficamos tão longe de repente. Eu não saberia responder. Nem mesmo lembro muito daquela época. Eu só queria agora te dar um beijo, sentir mais uma vez sua barba e seu cabelo. Entrei. Nem percebi que entrei. Tirei a sapatilha e o sobretudo bege. Sentei na cama, deitei. Encostei meu nariz no seu pescoço para fugir do cheiro da tristeza. E nenhum médico teve coragem de me tirar. Eu sei que era o pedido de desculpa mais sincero que você já teve e exatamente como desejava ter.

maio 4, 2010 at 8:32 pm Deixe um comentário

Para quem não está mais aqui, o que eu mais quero no mundo

Eu queria que a minha cama tivesse dois travesseiros ocupados e não somente um. Eu queria fazer aquele bolo com Nutella e ser feliz engordando quilos. Queria ver um filme e não ficar triste porque ele acabou e a minha vida voltou a ser minha. Por isso eu gosto de cinema, porque a gente entra num galpão escuro e por algumas horas vive a vida de outra pessoa. É tão bom ser outra pessoa… Às vezes, vou te contar, me imagino sendo outra pessoa. Não outro jeito, não outro cabelo, mas outra pessoa mesmo. Sabe aquele conto da Clarice? Encarnação involuntária? Sou eu. E eu queria ser eu também. Às vezes eu tenho essa vontade idiota. Como faz pra ser a gente? Você é você? É? Me diz um dia, quando terminar de fazer essas coisas ai que você está fazendo, como faz? Além disso, eu queria voar também. Nem vem, eu sei que você não sabe voar. Você bem arrumava as malas e saia pelo mundo em duas asas, mas elas não eram suas. Puxa… você bem podia ter asas, né? Ia combinar. Um par de asas bem grande. Aí eu amarraria uma corda na sua cintura e seguraria com força na outra ponta. Você me carregaria para onde fosse? Para onde fosse MESMO, tá? Promete? Promete que sempre vai estar ao meu lado? É que se você sumir eu não terei ninguem para colar bandeirinha de São João no barbante. Ninguém para me dar a tigela suja de massa de bolo crua, nem pra cuidar da minha tosse. Eu aprendo? Não, eu não aprendo não! Eu não quero aprender! Se eu aprender você vai achar que eu não preciso mais de você. Aí você vai embora. Ta, vou continuar. Eu queria ter os pés quentes, cílios grandes, cabelo liso escorrido igual aquela atriz de cinema. Eu queria dizer, para o menino do moletom preto, que ele é a coisa mais linda por dentro que eu já conheci. Eu gosto das pessoas por dentro, sabia? Por fora todo mundo é “meique” igual. Eu sou igual a tanta gente… nem acho isso ruim. Até fico triste quando sou diferente. Mas é porque eu sei olhar pra dentro. Será que só eu sei? Outro dia o cara da cantina me disse que todas as pizzas tinham milho. Como ele sabia que eu não gosto de milho? Será que se eu olhar bem para as pessoas, eu descubro do que elas gostam? Seria bom. Assim ia ser mais fácil comprar presente pra mamãe. Eu queria também que você fosse pro meu apartamento. Ele é bagunçado, pequeno, colorido, mas é gostoso. Quando você sair desse lugar que você está, parar de fazer essas coisas que você está fazendo, aí eu te levo lá. A gente passeia no centro e visita os sebos. Enquanto isso eu vou esperar. Esperar você sair desse lugar que você está, de fazer as coisas que você faz, voltar para onde você merece ficar. E aí, você vai me dar o que eu mais quero no mundo: você deixar de ser estrela, descer do céu e me dizer que foi tudo um sonho.

maio 2, 2010 at 2:50 am 1 comentário


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